• Marcos Oliveira

O flertador, por Ulisses Vasconcellos


Olivêra com os olhos arregalados e a boca aberta demonstrando espanto, surpresa, mas também alegria
me vejo num flerte qualquer, sem razão

Era início da manhã e, ainda ao travesseiro, ele compôs a primeira mensagem do dia:


“Sonhei com você. Deve ser a saudade” - mentia.


Teclaria mil vezes, conteúdos semelhantes, durante a manhã, a tarde e a noite. Estava viciado em flertar. Após o divórcio, ainda novo, redescobriu o universo da paquera, agora turbinado pelas redes sociais. Queria conquistar, buscava sentir a admiração que nunca havia experimentado na juventude.


Raramente saía com alguém. Chegou até a marcar de assistir a uma comédia romântica com uma moça. Fez um passeio pelo parque municipal, no pôr-do-sol, ao lado de outra. Tomou vinho em um restaurante bacana com uma terceira, mas nada disso ganhou sequência.


Os romances morriam por ali, como que de causas naturais. Affairs que nunca existiriam. Longe de querer mal a alguém, gostava mesmo era daquela fase pré-date, era nela que voavam alto as borboletas do seu estômago.


Enquanto tomava seu café preto, distribuía, com fartura, olhos de coração a postagens de sorrisos, pets e avós. Incendiava com foguinhos as fotos de praias, baladas e treinos, em um festival pirotécnico virtual. Esforçava-se para render algum assunto. Emulava infinitos interesses sinceros, que já se sublimariam.

Olivêra segurando um desenho em uma prancheta e na ilustração há uma moça de branco em um dia de chuva
contra a chuva caindo lá fora, um festival pirotécnico virtual

Ao vestir a camisa social, conferiu duas vezes o aplicativo de paquera. Ali sim um universo de possibilidades. Puxou papo com a vizinha no elevador, algo para além do clima da cidade. Na rua, buscava olhares que cruzassem com o dele. Na empresa, um bombom de nozes acompanhou o bom-dia à colega do outro setor. Ele não descansava, tornara-se um flertador compulsivo.


Flertou na fila do self-service e na reunião com fornecedores. No happy hour com rodada dupla de chope, ligou o radar no alcance máximo. Parece até que flertou com a atendente virtual do banco. Saldo zero, como de costume.


Valorizava a sensação do novo, da subida dos degraus da conquista. Talvez seus sentimentos se desenvolvessem no universo as ideias. Quem sabe, valorizava mais a mente do que o físico, mais a atenção e menos a carne.


Talvez fosse só mais um idiota, entre tantos por aí. Provavelmente um idiota qualquer.


Texto de Ulisses Vasconcellos, que certamente já emulou infinitos interesses sinceros.





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