• Marcos Oliveira

Rascunhos, por Ulisses Vasconcellos

Atualizado: há 1 dia



O cheiro do quarto era forte. Incômodo, enjoativo. Um aroma meio misturado de passado, produto de limpeza barato e perfume barato – perfume de gente mesmo, sabe-se lá ali desde quando. Mas era isso: quarto de hotel barato cheira coisa barata e era o que ele podia pagar por ora. Já se acostumara àquele odor ocre na fronha do único travesseiro sobre o lençol manchado no colchão duro.


A noite estava especialmente quente, mais do que as últimas. A janela aberta para um vão interno do prédio antigo não adiantava muita coisa – o ar parecia negar-se a correr pelas paredes beges descascadas. Sobre a cômoda, o ventilador, coitado, fazia o que podia: mais barulho do que sopro.


A única claridade do ambiente abafado era um filete amarelo vindo de um corredor direto no chão de tábuas riscadas. Ele até preferia assim. A penumbra ajudava na tentativa de relaxar e não atrapalhava a visão do papel na mão. À meia-luz, ainda pairava no ar a fumaça do último cigarro, ardendo no cinzeiro. Hotel barato pode tudo.


O celular ligado à tomada lá no banheiro cantava, melancólico, bem baixinho e em alto-falantes de pouca qualidade, algo sobre o que acontece enquanto a cidade dorme.


Olivêra segura um copo de whisky, sozinho, na penumbra, com olhar reflexivo
a saliva que eu troco e o copo que eu encho

Sentado na cama, costas nuas na parede, ele rabiscava com o lápis no bloquinho o formato de um rosto. Ainda era bom nisso, sempre fora. E agora tinha todo o tempo do mundo.

Com delicadeza e precisão, rascunhava o pescoço, traçava o busto, esculpia o nariz e delineava os olhos, cada íris preta bem viva. O resultado parcial agradava.


Um fio de cabelo longo, outro fio, mais um, uma curva para a franja. Riscos fortes e mais fracos, mil cores do mesmo cinza. Passaria a eternidade ali assim, consultando a memória e traduzindo os detalhes para a folha.


Um contorno especial nos lábios, levemente entreabertos. Hachuras sutis os faziam brilhar.

Ele era mesmo bom nisso.


Contemplou, orgulhoso, sua obra. Esboçou o primeiro sorriso em tempos.


Caminhou ao encontro do seu único companheiro desde que as coisas mudaram de vez.

Do armário de madeira sem portas, retirou um Campari já no terço final e encheu com uma

dose generosa um copo de formato supostamente inadequado. Brindou com a garrafa a

outros carnavais.


Um longo e prazerosamente amargo gole.


De olhos fechados, sentiu o quarto mais rubro, quente. O bloco de papel jogado na cama. Pensava seu desenho em movimento, com os cabelos soltos e a boca úmida pintada de

vermelho, daquele exato tom escarlate que ele tanto admirava e permanecia intacto na memória. Lábios que brilhavam.


Contemplou, orgulhoso, sua obra-prima. Permitiu-se o segundo sorriso da noite.


Um longo e amargamente prazeroso gole. Gostos bons.


Texto de Ulisses Vasconcellos, a quem sou muito agradecido.



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